Quem foi Siloé Valeriano Tavares?

 




    O ex-deputado Siloé Tavares faleceu aos 57 anos no dia 23 de maio de 1971 (um domingo), no hospital Prontalend, em Maceió. Filho de Antônio Tavares Guirra e Maria Joaquina Tavares, casado com Marina Rocha Tavares. A notícia referente à homenagem da Assembleia Legislativa de Alagoas ("Assembleia prestou homenagem a Siloé que faleceu domingo") foi publicada na Gazeta de Alagoas na terça-feira seguinte, dia 25 de maio de 1971.

   Segundo o eminente jornalista Paulo de Castro Silveira (1915–1989) que assinava colunas e crônicas diárias em veículos da imprensa alagoana, como o jornal Gazeta de Alagoas, assim descreveu o homenageado:

Desse político que conheci como Delegado de Polícia de Santana do Ipanema, mostrando sua coragem, rasgando cartas de valentes sem ter jamais aderido aos empreiteiros de crimes daquele sertão das décadas de 1930 e 1940. Sertão de jagunços, de coiteiros, espreitados pelos grupos de cangaceiros. Sertão das grandes secas, amedrontado, sem rodovias, sem ferrovias, sem hospitais, sem estabelecimentos bancários, sertão do beatismo tão próximo do cangaceirismo; sertão sem justiça social. Foi num ambiente assim que o ex-sargento do Exército Siloé Tavares iria começar sua vida política. Ele trazia da caserna a experiência não só patriótica, o amor ao Brasil, mas aquele diploma de trabalho que se conquista na caserna. Ele sabia que lei é uma coisa séria, que é redigida para ser respeitada. Ele sabia que a Carta Magna possuía um princípio de igualdade perante essa Lei que não pode distinguir o rico do pobre, o branco do preto. Ele tinha certeza que as miras dos taqueômetros e das bússolas valiam juridicamente mais do que as miras dos rifles por onde se demarcavam propriedades. Por isto, naquele sertão, Siloé surgia com uma nova mentalidade(Silveira, Gazeta de Alagoas,28 de maio de 1971).

    Silveira(1971) Além de enaltecer as qualidades de Siloé como figura pública, manifesta o apreço pessoal que tinha por ele e recorda o momento em que o conheceu.

A gente não pode mesmo se isolar, ficar num ostracismo voluntário, quando possui amigos, e o amigo é tudo na vida. A gente se serve dele como outrora se servia do padre no confessionário ou hoje se deita no divã do psicanalista, e solta o que está preso no peito, limpando a alma.
Acredito em amizade. E se não acreditasse, não seria rotariano.
Por isto, conduzido pela amizade, fui à posse do Siloé Tavares. Fui abraçar o sertanejo calejado, sofrido, mas nunca vencido. Fui vê-lo assumir diante do governador Afrânio Lages uma Diretoria do "Ipaseal". Ali naquele salão de despachos onde trabalhei tantos anos, vendo o sertanejo de Santana do Ipanema na sua humildade, chego a perguntar a mim mesmo: valeu tanta luta, tanto sacrifício de um homem que depois de longos anos de trabalho, está quase na estaca zero?
Respondo: valeu. É que Siloé Tavares pode andar de cabeça erguida(Silveira, Gazeta de Alagoas,28 de maio de 1971).

        O jornalista também descreve como o conheceu:

Conheci o santanense há muitos anos. Era naqueles dias um jovem militar egresso de uma unidade de engenharia do Exército Brasileiro. Transferido para reserva, ei-lo delegado de polícia de Santana do Ipanema. Era no início da década de quarenta da era getuliana (Silveira, Gazeta de Alagoas,28 de maio de 1971).

    Siloé foi eleito vereador para o mandato no período de 27/01/1948 a 31/01/1951.  Exerceu os mandatos de deputado estadual nos períodos: de 1951 a 1955 e de 1955 a 1959. Esteve presente no tiroteio que ocorreu na Assembleia Legislativa de Alagoas, em 1957, no dia da votação do impeachment do então governador Muniz Falcão, cuja sessão não chegou a ser realizada. Na ocasião, Siloé enviou uma mensagem de despedida à sua filha, temendo pela própria vida. Felizmente, ele saiu ileso do confronto.

    O episódio culminou com a morte do deputado Humberto Mendes, o que gerou grande repercussão nacional. Siloé Tavares foi descrito como um "homem de coragem", que honrou seu dever como deputado e evitou um derramamento de sangue ainda maior no confronto.

    Voltou a Assembleia Legislativa para exercer o mandado no período de 1967 a 1971. No dia 31.05.1969, ao lado do prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, vibraram com a conquista e inauguração da importante obra "Ponte sobre o Rio Ipanema General Batista Tubino" que interliga o centro da cidade ao bairro Domingos Acácio. O nome homenageia João José Batista Tubino, militar e político brasileiro que governou o Estado de Alagoas em 1966.


Inauguração de ponte Gen. Tubino sobre o Rio Ipanema, 31/05/1969. Os três personagens centrais: Padre Cirilo, Adeildo N. Marques e Siloé Tavares.

    Segundo Melo(1976), no ano de 1969 concorreram às eleições para prefeito de Santana do Ipanema os candidatos Siloé Tavares e Dr. Henaldo Bulhões Barros.

No ano de 1969 concorreram às eleições para prefeito os candidatos Siloé Tavares, apoiado pelo líder Adeildo Nepomuceno Marques e Dr. Henaldo que, por fim, foi eleito e assumiu o Governo em 31/1/1970. Seu governo não foi muito feliz, tendo em vista a grande seca que assolou o município, ocasionando uma terrível crise econômica e social, comparável, na opinião de muitos, à de 1877. O quadro, realmente, era desolador: fome, sede e doenças dizimaram rebanhos de gado vacum; a população rural sofreu muito com esse estado de coisas, não podendo pagar os impostos municipais, como também, a indústria e o comércio com tudo paralisado. A cidade se encheu de mendigos e a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE, em colaboração com as autoridades, fornecia água em seus caminhões para o povo, em diferentes lugares, rodando noite e dia sem parar(Melo,p.71-72,1976).

        A foto a seguir capturou um momento de congraçamento social. Registro de formatura de uma das primeiras turmas do curso de magistério do Colégio Estadual Prof.º Deraldo Campos (Mileno Ferreira).


Em pé: João Santana, Siloé Tavares, Jugurta Nepomuceno, Zé Soares, Rubem Azevedo e Antônio Bulhões: Sentados: Ana Carvalho, Dolores Wanderley, Risalva Wanderley, Ezequias Rocha, Cássia Soares,  Carmem Lúcia Azevedo e Vera Bulhões. 1970.

    De acordo com Melo(1976), em razão de sua derrota na disputa pela prefeitura, Siloé foi convidado pelo governador Afrânio Lages para assumir em Maceió o cargo de diretor do IPASEAL.

Pouco tempo depois, chegou a Deputado Estadual, dedicando-se com fervor à política, e por ela morreu. Era homem dinâmico, procurando acima de tudo ser honesto e leal como fora seu pai, Antônio Tavares¹. Amigo do ex-governador do Estado, Dr. Afrânio Lages, fora por ele convidado para exercer em Maceió o cargo de Diretor da Carteira Beneficente do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado de Alagoas - IPASEAL, tendo em vista não ter sido eleito prefeito de Santana do Ipanema, na oportunidade. Em outubro de 1971, veio a falecer antes de assumir o referido cargo(Melo,p.73,1976).

    Silveira(1971), enaltece as qualidades de Siloé como um político exemplar que nunca usou seu cargo em benefício pessoal.

Passaram-se os anos. Siloé Tavares casou-se. E, como eu, um vovô. Foi vereador, deputado em várias legislaturas, tudo na época fácil em que certos políticos por estes Brasis tiravam vantagens com as cheias, com as secas, com o jogo do bicho, com as construções de estradas. Outros se tornaram donos de terra, latifundiários ou minifundiários. Mas, se muitos políticos não cumpriram seus deveres, muitos na República velha ou na República nova deram exemplos admiráveis de um Fernandes Lima, de um Álvaro Pais, de um Ernandi Basto, que nunca fizeram da política um balcão de negócios. Siloé Tavares é um destes. Pode exibir um passado limpo. Político o foi sempre, defendendo a bandeira do seu partido. Mas não se embriagou com o canto da sereia em busca de vantagens espúrias.(Silveira, Gazeta de Alagoas,28 de maio de 1971).

    Silveira(1971) finaliza suas considerações sobre o amigo lembrando o legado que ficará para a história.

Siloé Tavares não possui bens para deixar para a esposa, filhos e netos. Mas esse patrimônio moral que ele soube fazer, rejeitando os acenos dos pecadores, é um grande patrimônio. Um imenso patrimônio (Silveira, Gazeta de Alagoas,28 de maio de 1971).


    Em meio às turbulências da vida pública, Siloé Tavares deixou como herança não riquezas materiais, mas um patrimônio moral que se ergue como farol para as gerações futuras. Sua trajetória mostra que a política pode ser exercida com coragem, honestidade e respeito ao povo, sobretudo aos mais pobres, que tantas vezes são esquecidos. Num cenário em que se multiplicam os que fazem da política um balcão de negócios, Siloé se destacou por manter a cabeça erguida e o coração voltado ao serviço coletivo. É esse o político que a sociedade espera: aquele que não se curva às vantagens fáceis, que não se embriaga com o poder, mas que se dedica a transformar a vida dos que mais precisam. Por isso, sua memória permanece viva, como testemunho de que ainda é possível acreditar na política como instrumento de justiça e dignidade.

    Por fim, encontramos homenagens ao personagem em diversos logradouros públicos na Capital e no Sertão.


Maceió
Rua Deputado Siloé Tavares: Localizada no bairro da Gruta de Lourdes (próxima ao Hospital Arthur Ramos).

Santana do Ipanema
Rua Siloé Tavares / Travessa Siloé Tavares: Situadas no bairro Saudade.

Olivença
Rua Deputado Siloé Tavares: Localizada na região do Centro de Olivença.

Ouro Branco
Praça Siloé Tavares: Espaço público urbano localizado no município.

    A pesquisa é sempre um trabalho colaborativo. Meus agradecimentos aos familiares e ao amigo mediador Cláudio Campos. Igual deferência presto ao amigo Marcello Fausto que me instigou a trazer à luz tão importante personagem da nossa história.

¹Antônio Tavares foi comerciante e panificador. Morou na rua que lhe presta homenagem.
    

Referências:

Melo, Floro de Araújo e Darci de Araújo. Santana do Ipanema Conta a sua História. Rio de Janeiro. 1976;

Paulo de Castro Silveira (1915–1989) foi um destacado advogado, jornalista, cronista, crítico literário e intelectual alagoano. Assinava colunas e crônicas diárias em veículos da imprensa alagoana, como o jornal Gazeta de Alagoas. É autor de livros sobre história e personalidades da política e da cultura do estado de Alagoas, incluindo a obra "Tavares Bastos: Um Titã das Alagoas". Atuou como advogado e exerceu cargos executivos na administração pública de Alagoas, como na diretoria do IPASEAL-Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado de Alagoas. Integrante ativo do Rotary Club de Maceió (referido por ele próprio como "rotariano") e participante do cenário cultural alagoano.


Setembro, 2026








Comentários

  1. Excelente matéria, até tão pouco se sabia desse grande político alagoano de Santana do Ipanema, provoquei por algumas vezes o nosso amigo Marcelo Fausto por informações a respeito de Siloé Tavares. É bom que fique registrado também : Siloé foi vereador eleito pelo municipio de palestina . Ele foi eleito em 7 de setembro de 1963 e tomou posse em 10 de outubro de 1963 e renunciou na Sessão de 14 de dezembro de 1963. Era muito amigo do fundador da cidade de palestina José Ferreira de Melo (1913 - 1994)

    ResponderExcluir
  2. Excelente matéria, João Neto. Já tinha procurado e não tinha encontrado a data da inauguração da ponte que liga Santana ao bairro de Domingo Acácio.Excelente sua pesquisa

    ResponderExcluir
  3. Fernando Chagas13/09/2026, 11:06

    Excelente levantamento de informações que acredito que muitos não tinham conhecimento desses fatos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas