Os versos visuais de Japson Almeida(1922-1992)
Japson Macêdo de Almeida nasceu em 1922, em Capela, Alagoas, quando a cidade ainda se chamava Conceição da Paraíba. Filho de Noé Vieira de Almeida e Laura Macêdo de Almeida, cresceu entre o interior e o desejo de conhecer o mundo. Na juventude, mudou-se para Maceió, onde concluiu os estudos e iniciou sua vida profissional como comerciário e funcionário público. Mas o destino já lhe reservava outra lente: a da fotografia.
![]() |
| Japson Macedo de Almeida(1922-1992) |
Foi em 1950 que Japson Almeida descobriu sua verdadeira vocação. Uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, capturada por suas mãos, ganhou repercussão e abriu-lhe as portas para uma carreira que se tornaria histórica. Esse registro, feito com uma câmera emprestada, ganhou enorme repercussão e marcou o início de sua carreira profissional. A foto de Nossa Senhora de Fátima foi amplamente divulgada e associada a um “milagre fotográfico”, o que deu notoriedade ao jovem fotógrafo.
Até então comerciário e funcionário público, Japson passou a se dedicar integralmente à fotografia. Ele utilizava uma câmera Rolleiflex, famosa pela qualidade ótica, que lhe permitia capturas detalhadas e composições refinadas. Fundou escola de fotografia em Alagoas, atuou como repórter fotográfico, registrou acontecimentos políticos, sociais e científicos, e deixou um acervo hoje preservado pela Fundação Joaquim Nabuco em Recife PE.
![]() |
| Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima que esteve em Maceió e Santana do Ipanema em 1950, mas não posso afirmar que esse é o registro fotográfico de Japson. |
A imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima veio de Portugal e chegou ao Brasil em 1948. Em Maceió, foi recebida em 1950. Além de Maceió, esteve em Santana do Ipanema em dois momentos distintos: parada na Capela de Nossa Senhora da Assunção no bairro monumento, e outra parada na igreja Matriz de Senhora Santana e São Joaquim. O saudoso escritor Djalma de Melo Carvalho(1938-2026) revelou-me que esteve presente nos eventos. No mesmo dia, a caravana seguiu com a imagem com destino a Paulo Afonso BA. É possível que tenha passado em outras cidades alagoanas, mas não tenho informações. Tenho no meu acervo fotografias do acontecimento.
A partir daí, Japson com a sua inseparável Rolleiflex passou a registrar não apenas rostos e paisagens, mas também os acontecimentos que moldaram Alagoas. Ele fotografou pescadores à beira-mar, ambulantes nas ruas, cirurgias médicas para fins científicos e até o tiroteio na Assembleia Legislativa que culminou no impeachment de Muniz Falcão. Seu olhar era ao mesmo tempo estético e documental, capaz de transformar o cotidiano em memória coletiva.
Japson não se limitou às imagens fixas. Foi dono de cinemas de bairro, produziu documentários em 16mm e Super 8, e participou ativamente do Fotoclube de Alagoas, incentivando novos talentos. Seu estúdio, o Cine-Foto Manguaba, tornou-se referência na capital, um espaço onde a fotografia era celebrada como arte e testemunho.
Homem de família, casou-se em 1948 com Marinita Vasconcelos Barbosa de Almeida, com quem teve cinco filhos. Entre o lar e a rua, entre o íntimo e o público, Japson construiu uma obra que atravessou décadas. Faleceu em 1992, mas deixou um legado que continua vivo: seu vasto acervo, hoje preservado pela Fundação Joaquim Nabuco, é uma janela para o passado de Alagoas e do Brasil.
Japson Almeida foi mais que fotógrafo. Foi cronista visual de um tempo, guardião de memórias e narrador silencioso das transformações de sua terra. Cada clique seu é uma crônica em imagem, um fragmento de olhar que nos devolve a história com poesia e verdade.
Embora tenha atuado principalmente em Maceió, ele também fotografou diversos municípios do interior alagoano, incluindo Santana do Ipanema. As imagens atribuídas a ele fazem parte de seu acervo documental sobre Alagoas, que buscava registrar tanto a capital quanto o interior. Por isso, muitas fotos antigas de Santana do Ipanema trazem a assinatura “Japson”, consolidando sua autoria como referência histórica.
Cronista da luz, também voltou seu olhar para o interior. Ali, no coração do sertão, sua Rolleiflex captou não apenas imagens, mas pulsações de uma cidade que se reinventava entre o rio e a feira, entre a fé e o trabalho.
Podemos imaginar suas lentes atravessando a poeira das ruas, fixando o instante em que o sol dourava as fachadas antigas. A feira livre, com suas barracas de frutas e tecidos, tornava-se um mosaico de cores e gestos. A igreja matriz, erguida como guardiã da fé, aparecia em suas fotos como símbolo de permanência. O rio Ipanema, ora generoso, ora seco, era testemunha silenciosa das vidas que se desenrolaram em suas margens.
Cada fotografia de Japson no coração do sertão é mais que registro: é memória viva. Elas ajudam a reconstruir a memória urbana e social da cidade, mostrando como Santana cresceu, como suas ruas se transformaram, como sua gente se reinventou. Seu olhar é considerado um testemunho autêntico da vida no interior alagoano no século XX, devolvendo à cidade sua própria identidade em imagens que resistem ao tempo.
Japson não apenas fotografou Santana: ele a eternizou. Suas imagens são como versos visuais, fragmentos de um olhar que devolvem ao presente a poesia do passado. Em cada clique, há o sertão que pulsa, há a cidade que respira, há o povo que permanece.
Temas recorrentes:
Cotidiano alagoano (ambulantes, pescadores, artistas).
Eventos políticos, como o impeachment do governador Muniz Falcão.
Evolução urbana de cidades como Maceió e Santana do Ipanema.
Atividades industriais, como sondas de petróleo.
Preservação e publicações
Acervo: Doado pela família à Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Pernambuco.
Livros e exposições:
Japson Almeida – Fragmentos de um Olhar (2015, relançado em 2022).
Exposições no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-AL).
Essas iniciativas resgataram imagens que estavam quase perdidas e reforçam sua importância para a memória visual de Alagoas.
Exemplos de registros de Santana do Ipanema
Fotos de 1958: vistas gerais da cidade, feira, igreja e pecuária.
Procissões e festas religiosas: Também registrou manifestações culturais e religiosas típicas do sertão.
Urbanização: imagens mostram a transição da cidade rumo à modernização.
Como acessar hoje
Online:
Blog do Sávio Almeida - Banco de Imagem: Santana do Ipanema -
Presencial:
Fundaj, em Recife, para consulta ao acervo físico.
Arquivo Público de Alagoas, em Maceió, para exposições e materiais complementares.
Essas fotografias são de 1958 e são de autoria de Japson Macedo de Almeida.
Arquivo Público de Alagoas-APA
Setembro, 2026
.jpg)
.jpg)

.jpg)






















Excelente registro.
ResponderExcluirQuanta riqueza de detalhes, João Neto...
ResponderExcluir