Ecos do tempo e do vento
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| Colégio Estadual Professor Mileno Ferreira |
Aos nossos mestres do passado e do presente
Quando o velho carrilhão da matriz martelou as sete horas da noite, apressei o passo. A prova de matemática do professor Eli me aguardava no Colégio Estadual, e eu não queria chegar atrasado. O coração já batia acelerado, não apenas pelo vestibular que se aproximava, mas pelas dúvidas sobre qual caminho seguir e as incertezas do futuro.
O centro da cidade estava quase deserto. O Cine Alvorada exibia cartazes desbotados de filmes que já haviam saído de cartaz, e a praça guardava alguns homens em conversa lenta, como se o tempo não tivesse pressa. O vento trazia o cheiro doce da pipoca misturado ao incenso da matriz. Na barraca de cigarros e doces, o vendedor aguardava sua clientela e eu me sentia parte de uma coreografia invisível que unia o sagrado e o cotidiano.
No alto-falante da matriz, o canto gregoriano em português ecoava solene. Eu quis parar para ouvir, mas segui adiante, prometendo a mim mesmo que um dia pediria ao padre Cirilo o long play para gravar em fita cassete. O relógio da igreja com seus ponteiros lentos parecia zombar da minha pressa.
Ao entrar no colégio, encontrei meus colegas em diferentes estados de espírito: Cláudio folheava o caderno como se ainda houvesse tempo para aprender; Abdon mordia o lápis, nervoso; e Estela, ria alto, tentando disfarçar o medo. Essa diversidade me ensinava que cada um carrega sua própria forma de enfrentar os desafios.
O professor Eli, com sua calma habitual, arrumava os papéis sobre a mesa. Seu olhar sereno parecia dizer que a matemática não era inimiga, mas a ponte para compreender o mundo. Quando distribuiu as provas, o silêncio da sala foi quebrado apenas pelo ranger das carteiras e pelo som das folhas viradas.
Naquele instante percebi que não se tratava apenas de cálculos. Cada questão era um convite para medir não só o conhecimento, mas também a coragem diante do nervosismo. O educandário, mais do que espaço de aprendizado, era um laboratório de emoções. Eu estava encerrando minha passagem pelo colégio depois de quase uma década. Eu me sentia um pouco triste por algo que nem eu sabia definir ou explicar. Talvez fosse saudade do infinito pelas incertezas da vida adulta que me rondava.
Ao sair, o vento da noite parecia mais leve. O canto gregoriano já havia cessado, mas ainda ecoava dentro de mim como trilha invisível. Caminhei pela praça e vi novamente o carrilhão, agora silencioso, guardando segredos do tempo. Pensei em como a cidade, seus cheiros, sons e encontros era parte inseparável da minha formação.
Atualmente, todas as vezes que passo pela BR 316, no trecho urbano do aterro, contemplo a imponência do Colégio e me vejo ali, revivendo antigas lembranças que tomam conta de mim e vão recompondo a paisagem; a travessia no riacho Camoxinga sobre pedras, a quadra de futebol de salão de chão batido que tantas joguei e que foi engolida pela expansão do prédio; a sagacidade do zelador Luiz Buru;a ingenuidade de Ciço Mouco e o humor ácido do diretor Mileno Ferreira…
Nos anos seguintes, vieram os vestibulares, as reprovações, o fim da Ditadura Militar, a redemocratização e as mudanças sociais que atravessaram o país e, por fim, minha graduação em Administração na UFAL. Cada etapa era como uma nova prova, somando fracassos e conquistas na matemática da vida.
Quando soube da morte do professor Eli, vítima de acidente automobilístico, senti que o carrilhão havia perdido uma de suas notas mais importantes. Quanto ao canto gregoriano, o padre Cirilo, doou-me o LP que tenho até hoje. O canto que naquela noite me acompanhou, continuou ressoando em mim — lembrando que os mestres nos ensinam muito além das equações: ensinam a enfrentar o tempo, o vento e a própria vida.
Outubro, 2026
Faixa bônus - Salmo 22
Texto complementar
O LP "Salmos e Cânticos", gravado nos anos 1970 pelo Coro do Santuário e Franciscanos de Divinópolis MG, sob a regência de Frei Joel Postma, foi um marco na renovação da música litúrgica no Brasil pós-Concílio Vaticano II, na década de 1960. O álbum foi baseado no célebre método de salmodia criado pelo jesuíta francês Pe. Joseph Gelineau, S.J., adaptado ao português.
O Pe. Joseph Gelineau desenvolveu um sistema melódico estruturado com base no ritmo natural e nos acentos do texto bíblico. Isso permitia que os salmos fossem cantados na língua local (vernáculo) de forma fluida, sem perder a dignidade e a solenidade do canto gregoriano.
Frei Joel foi o responsável pelos arranjos melódicos e pela direção musical. Ele preparou o Coro de Divinópolis para executar essas peças a quatro vozes mistas e com acompanhamento de órgão ou violão, o que ajudou a difundir essa belíssima prática de oração cantada pelas paróquias de todo o país.
Texto complementar
O LP "Salmos e Cânticos", gravado nos anos 1970 pelo Coro do Santuário e Franciscanos de Divinópolis MG, sob a regência de Frei Joel Postma, foi um marco na renovação da música litúrgica no Brasil pós-Concílio Vaticano II, na década de 1960. O álbum foi baseado no célebre método de salmodia criado pelo jesuíta francês Pe. Joseph Gelineau, S.J., adaptado ao português.
O Pe. Joseph Gelineau desenvolveu um sistema melódico estruturado com base no ritmo natural e nos acentos do texto bíblico. Isso permitia que os salmos fossem cantados na língua local (vernáculo) de forma fluida, sem perder a dignidade e a solenidade do canto gregoriano.
Frei Joel foi o responsável pelos arranjos melódicos e pela direção musical. Ele preparou o Coro de Divinópolis para executar essas peças a quatro vozes mistas e com acompanhamento de órgão ou violão, o que ajudou a difundir essa belíssima prática de oração cantada pelas paróquias de todo o país.
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Me lembra do tempo em que era coroinha.
ResponderExcluirUma reflexão sobre o Colégio Estadual Deraldo Campos na vivência do aluno João Neto Mendes e suas preocupações com a Matemática de Professor Eli.
ResponderExcluirUm grande crônica. Parabéns Xará!!
Perfeito.
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