Por que o termo "Ponte do Padre"?
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| Ponte do Padre e os mirantes de ambos os lados. Década de 1950. Autor desconhecido. Acervo físico e digital João Neto F Mendes |
Segundo Medeiros(2016), o cônego José Bulhões(1886-1952) foi o 21.º padre de Santana do Ipanema, cujo pastoreio guiou os sertanejos de 1917 a 1952. Em 1917, foi designado coadjutor do Monsenhor Manoel Capitulino de Carvalho, assumindo a titularidade em 26 de janeiro de 1919. Residiu no casarão situado à direita da foz do riacho Camoxinga. O solar parecia um hotel de tanto hospedar parentes e amigos.
No prefácio do professor Dr. José Marques de Melo(1943-2018) na 3.ª edição do livro "Escorço Biográfico do Missionário Apostólico Dr. Francisco José Correia de Albuquerque”(2012), o emérito professor discorreu sobre as origens do arraial, destacando a junção do riacho Camoxinga com o Rio Ipanema, como referência geográfica da futura cidade:
“Assim sendo, quando o padre secular Francisco José Correia de Albuquerque chega, em 1787, à Ribeira do Panema, na confluência do riacho Camoxinga com o Rio Ipanema, sua missão consiste em catequizar os caboclos ali arranchados. Isso se justifica plenamente, pois “embora altamente mestiçados, a ponto de poderem ser distinguidos, pelo tipo físico, da população sertaneja, viviam à parte, conservando o idioma Iatê” e mantendo-se “fiéis ao culto do Juazeiro Sagrado, que cada ano reunia toda a tribo na caatinga”(Ribeiro, 1977, p.54).
Muitos estudiosos apontam que “Camoxinga” pode derivar de radicais indígenas semelhantes a caá (mata, vegetação) e çangá (extensa, grande), formando algo como “mata extensa” ou “campo grande”. Há registros da palavra “caxinga” em dicionários informais, significando cheiro forte ou desagradável (derivado de “catinga”).
Em Santana do Ipanema, “Camoxinga” nomeia o riacho que, por sua vez, designou o nome do bairro, reforçando a hipótese de que o termo foi adaptado da língua indígena para designar uma área natural que depois se urbanizou.
Comparação de variantes
Palavra/Variante Origem provável Significado
Camoxinga Tupi-Guarani (hipótese) “Mata extensa” ou área de vegetação
Caxangá Tupi-Guarani (caá-çangá) “Mata extensa”; também usado como nome de crustáceo ou chapéu
Caxinga Português popular (Derivado de “catinga”) Mau cheiro, inhaca, odor forte
O curso d'água nasce nas entranhas da Serra dos Meninos, na divisa dos estados de Alagoas e Pernambuco, foi determinante na localização geográfica da formação inicial de Santana do Ipanema, visto que serve de referência incontestável da formação do aglomerado urbano. Seu percurso corta a área urbana, desaguando no rio Ipanema, próximo ao poço do Juá.
Tudo o que ficou à margem direita do acidente geográfico ficou popularmente batizado como Camoxinga, dando início ao futuro bairro. E o que ficou à esquerda recebeu o nome de Monumento, quando foi inaugurada a capela em honra a Nossa Senhora da Conceição/Assunção em 1900, pelo monsenhor Manoel Capitulino de Carvalho(1872-1942).
O termo ancestral faz parte da memória coletiva santanense e ainda recebeu homenagem imorredoura pelo poeta cantante da terra espinhosa; Remi Bastos. Cantar sua terra é a sua confissão de amor incomensurável. Há décadas a música faz parte do cancioneiro local. Na Feira de Arte e Cultura, edição de 1996, na AABB, recebeu a maviosa interpretação sertaneja dos irmãos Senno e Sandro. Camoxinga foi gravada em 1999 e faz parte do repertório da gravação de álbum no formato Compac Disc-CD com apoio da Prefeitura Municipal na gestão do prefeito Paulo Ferreira de Andrade(1931-2018), com o título: Santana do Ipanema, 129 anos de história. Ouça a inesquecível interpretação do músico e cantor Dênis Marques, com arranjos do maestro Edinho e Valdo Santana, o popular Pangaré.
Camoxinga
Velho riacho esquecido
Eu trago sempre comigo
Lindas recordações
De um tempo feliz
Camoxinga
Que nas manhãs arrogantes
Embaixo da velha ponte
Ao Ipanema encontrar
Camoxinga
Bairro da minha cidade
Hoje eu chorei de saudade
Nesta canção singular
Camoxinga
Segue o teu velho capricho
Nas águas do São Francisco
Vai se perder lá no mar.
O casarão do padre Bulhões era a única residência na ribanceira da foz do riacho. O cenário bucólico interiorano era deslumbrante, porém de muitos inconvenientes da mobilidade diária, principalmente nas enchentes; ora do riacho, ora nas cheias do Ipanema. A passagem de um lado para o outro só era possível através de canoas. Além disso, as pontes improvisadas de madeira eram frequentemente destruídas pela força das águas. Foi o que aconteceu e teve registro fotográfico em 1914, tanto da cheia do Rio Ipanema, quanto da destruição da ponte improvisada na foz do riacho. Foi uma das maiores cheias de que se tem notícia.
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| Curiosos observando a enchente do rio Ipanema que levou ao desabamento da ponte de madeira no riacho Camoxinga, 1914. Autor desconhecido. Acervo físico e digital de João Neto F Mendes. |
Na foz também foi fotografada a travessia de veículo sobre canoas, visto que o riacho Camoxinga quando estava cheio fazia represa por causa das águas do Ipanema, fazendo com que somente fosse possível a travessia automóvel do comércio para o bairro Camoxinga e vice-versa, amarrado nas canoas. Do lado do monumento, à esquerda da foz, transformou-se no mirante mais belo da vila, de onde era possível apreciar a bela paisagem do largo do Rio Ipanema e do poço do juá e da foz do riacho Camoxinga acalentados pelo manto do arrebol vespertino quando o pôr do sol se aquietava no horizonte.
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| Travessia de veículo na foz do riacho Camoxinga, década de 1940. Autor desconhecido. Acervo físico e digital de João Neto F Mendes. |
Somente em 1947-1948, foi construída pelo governador Silvestre Péricles(1896-1972) a ponte de concreto armado sobre a foz, solucionando definitivamente a passagem segura entre os dois bairros. O prefeito no período era o senhor Firmino Falcão Filho(1900-1984), conhecido como seu Nozinho. Ao contrário do que alguns historiadores defendem, os recursos para construção da obra foram provenientes do estado e não do município.
vídeo das realizações do governo de Silvestre Péricles em 1947
Como o padre era morador mais ilustre do local, o povo passou a denominar a passagem como Ponte do Padre Bulhões. Com o tempo, o termo foi reduzido à Ponte do Padre, permanecendo até os dias atuais. Infelizmente, o histórico casarão onde o padre José Bulhões residiu com as suas irmãs, Maria(Maroquita) e Angélica(Liquinha) foi demolido diante da letargia estarrecedora da sociedade santanense nos anos 2000.
Lembremo-nos que o filho de Corisco e Dadá, Sílvio Hermano de Bulhões(1935-2024), foi enviado ao Pe. Bulhões para adoção em 1935 e ali residiu grande parte da sua vida. A maternidade adotiva foi assumida por Angélica(Liquinha). Maroquita foi uma das primeiras mulheres a ser eleita como vereadora na 1.ª Legislatura Municipal de Santana do Ipanema no período de 1936 a 1937.
Maroquita cuidava dos afazeres essenciais da Igreja Matriz de Senhora Sant'Ana. Relatos históricos afirmam que ela preparava as hóstias utilizadas nas celebrações. Inclusive continuou produzindo no período do pároco Luiz Cirilo Silva. Eu estive lá algumas vezes e peguei as sobras para comer como biscoito. Na década de 1960, desempenhou um papel fundamental no cenário católico e comunitário ao apoiar a criação do coral da região em parceria com outras expressões da sociedade do canto coral. Maroquita também ajudou a salvaguardar a memória de Santana do Ipanema. Ela foi responsável por ceder livros e documentos importantes da biblioteca particular de seu falecido irmão para a gestão municipal do prefeito Hélio Cabral de Vasconcelos.
Há décadas os logradouros foram ocupados irregularmente e descaracterizados por comerciantes de ambos os lados diante da inércia e negligência dos prefeitos que se sucederam. Esse episódio faz parte das incoerências de uma cidade que ainda não aprendeu a preservar sua história e, em consequência, as gerações futuras não viram o patrimônio histórico que se dissolveu na curva do rio.
Mirante da Ponte do Padre. Na foto, Maria da Luz Oliveira na década de 1960.
Autor desconhecido. Acervo físico e digital de João Neto F Mendes.
Outubro, 2026






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Parabéns Xará!
ResponderExcluirMais um belo registro, com resgate da história e com contexto.