O envelope pardo - memória de um aprendizado

 



    Naqueles anos, o tempo parecia correr mais devagar no sertão. O sol se deitava preguiçoso sobre as ruas e ladeiras, e eu, aos 14 anos, como menor aprendiz, descobria o mundo dentro de um prédio de paredes claras: o Banco do Brasil. Ali, entre o tilintar dos carimbos e o murmúrio das máquinas de escrever, aprendi que a vida se escreve também nos detalhes.

    Meus mestres se tornaram bússolas: Nadinho (Reginaldo José Raymundo), com sua calma que serenava os dias — embora detestasse reuniões; Capiá(Luiz Antônio de Farias), sempre presente, quase um irmão mais velho; e Djalma Carvalho, o supervisor, cuja voz firme carregava a autoridade de quem sabia ensinar sem levantar a mão, apenas com a força da palavra.

    Foi ele quem me entregou, certa manhã, um envelope pardo. A tarefa parecia simples: escrever “material de expediente”, acrescido do nome da agência destinatária, para onde seria enviado, via malote. Mas minha pressa juvenil traiu-me, e no papel nasceu “expidiente”. Djalma olhou, não com dureza, mas com a precisão de quem sabe que um erro pode ser a semente de um aprendizado eterno.

    — Corrija para “expediente”. Tenho certeza de que você nunca mais errará essa palavra.

    Naquele instante, senti como se o mundo tivesse parado. Fiz um pacto silencioso comigo mesmo: não permitir que a desatenção apagasse o valor das palavras. Mais do que corrigir uma grafia, aprendi que cada gesto carrega responsabilidade, e que a vida exige cuidado até nos menores detalhes.

    Mais tarde, nunca relembrei do episódio da minha estreia como menor aprendiz. Tenho certeza de que ele não guardaria lembrança de algo tão insignificante. A lição, porém, ficou para mim guardada no relicário existencial.

    No ano seguinte, em 1976, foi transferido para Maceió. Em 1977, Djalma lançou Festas de Santana, marco da literatura santanense, com prefácio de Divaldo Suruagy (1937-2015) e capa assinada pelo artista plástico Paulo Ney Rego Damasceno (1937-2015). Em 2021, lançou a segunda edição revisada e atualizada. Cada página parecia um pedaço de chão, cada palavra um retrato da memória coletiva de sua gente. A partir de 1994, publicou outros quinze livros: 14 de crônicas e um de contos.

    Eu também saí e voltei a tempo de reencontrá-lo. Em 1991, tive novamente o prazer de conviver com o grande santanense, quando retornou à agência de Santana do Ipanema no cargo de gerente geral. Ali encerrou sua carreira, depois de mais de trinta anos de serviços, na mesma agência em que havia tomado posse em 1961. Eu agora era um escriturário.

Em pé, da esquerda para à direita:
 Elias, Leonilton, Maria Dionízio, Nadinho, Manoel do Bode, Paulo, Djalma, Mário Maciel, Fidel e José Cipriano.
Sentados: Ivan Caju, Dorinha, Maria do Carmo, Rossildes, Assunção, Sheila, Cláudia, Jário e Luiz Euclides.
Sentados no chão: Elvânio, Mário Silva, Narciso, João Neto, Neto, Fernando Chagas e José Enaldo.



  Ontem, 31 de janeiro de 2025, ao saber da partida de Djalma aos 87 anos, o tempo voltou a se dobrar sobre si mesmo. Vi novamente o envelope pardo em minhas mãos, ouvi sua voz firme, e percebi que aquela lição não era apenas sobre ortografia. Era sobre dignidade, sobre a construção de um cidadão.

  Em 2025, tive a honra de autografar meu segundo livro para ele. Na dedicatória, fui breve. Escrevi: “Estou seguindo seu exemplo.” Somente eu sabia da importância daquela simples frase diante das lembranças provocadas pelo envelope pardo.

    Desde 2012, compartilhamos os mesmos ideais de preservação da identidade santanense como associados efetivos da Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes. Ele ocupava a cadeira de Oscar Silva (1915-1991), outro grande escritor santanense. Eu ocupo a cadeira do maestro Manuel Vieira de Queirós, maestro Queirós(1868-1924), fundador da pioneira Sociedade Musical Dramática Santanense, em 1908, que incluía além da Filarmônica Santa Cecília, o inédito teatro santanense.

    Djalma, que nasceu no Sítio Gravatá, foi o guardião da identidade cultural de Santana do Ipanema. Seus livros não eram apenas registros: eram pontes entre o passado e o presente, entre a história e a poesia. Ele transformou lembranças em patrimônio, e fez da escrita um ato de amor à terra natal. Ao segui-lo, percebi que escrever não é apenas narrar, mas perpetuar — é dar voz às ruas, às pessoas, às tradições que poderiam se perder no silêncio.

    Elevei meu olhar para o alto e fiz uma breve oração por sua alma e agradeci. Porque há mestres que não se despedem: permanecem vivos em cada palavra registrada, em cada atitude honesta, em cada lembrança que nos guia.

     E assim, entre saudade e gratidão, compreendi que a vida é feita de envelopes pardos — simples por fora, mas capazes de guardar dentro deles o peso e a beleza de lições eternas.


Fevereiro, 2026

Comentários

  1. Parabéns João Neto. Lamento muito não estar naquela foto.
    Já tinha saído pra Maravilha.

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  2. Quem escreve com a dádiva de escritor, não risca palavras em um papel, mas desenha verdades com características sentimentais, vindas da alma. Que escrito maravilhoso!

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