A sentença silenciosa dos jumentos
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Monumento ao Jumento atualmente, Santana do Ipanema No sertão, cada pedra do caminho guarda a memória de passos firmes e orelhas atentas. O jumento, companheiro de tantas jornadas, foi mais que animal de carga: foi resistência, sobrevivência e parte da alma nordestina. Nos anos 1970, em Santana do Ipanema ergueu-se um monumento em sua homenagem. Não era apenas cimento e areia, mas um gesto de gratidão a quem carregou água, comida e esperança sob o sol inclemente. Um símbolo de que o sertão reconheceu sua dívida com aquele que nunca se negou ao trabalho. Mas hoje, esse mesmo monumento corre o risco de se tornar apenas uma lembrança. Enquanto o mundo gira em torno de mercados e lucros, o jumento desaparece das estradas de terra, vítima de um comércio silencioso que transforma sua pele em mercadoria para indústrias distantes. O animal que sustentou famílias agora é caçado, transportado sem água, confinado em currais superlotados e abatidos em série. Segundo a Revista Pesquisa FAPESP, pesquisadores e criadores se mobilizam para evitar o extermínio e ressaltar a importância genética desses animais, usados no transporte de cargas e pessoas e na agricultura desde o início da colonização. No III Workshop Internacional Jumentos do Brasil, realizado em junho de 2025 em Maceió (AL), foi divulgada a “Declaração de Maceió – Estado de emergência: Extinção do jumento nordestino”, alertando para a redução de 94% do rebanho nacional de asininos (jumentos e jumentas), que caiu de 1,3 milhão em 1997 para 78 mil em 2025, de acordo com estimativas de pesquisadores baseadas em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura e Pecuária (SIF-Mapa) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Monumento ao jumento e tangedor original na década de 1970 Segundo o Mapa, 248 mil animais foram abatidos, uma média de 113 por dia, entre 2018 e 2023. Enquanto no século passado o interesse estava na carne do jumento, atualmente a motivação é a pele dos animais, utilizada na produção de um composto chamado ejiao. Feito com o colágeno extraído da pele dos jumentos, é bastante consumido na China e vendido on-line por até US$ 920 o quilograma (kg). De acordo com a organização não governamental britânica The Donkey Sanctuary, o consumo de ejiao impõe a necessidade de matar 6 milhões de jumentos por ano. O sertão, que sempre foi palco de resistência, assiste ao esvaziamento de sua própria identidade. Povoados inteiros já não têm o som das patas firmes nem o relincho que anunciava sua chegada. O silêncio das estradas é também o silêncio de uma cultura que se desfaz. E há algo de cruel nesse desaparecimento: não é apenas a morte de um animal, mas a morte de uma memória coletiva. O jumento foi testemunha das secas, das esperas, das esperanças. Foi ele quem levou o menino à escola distante, quem carregou a água que salvou famílias inteiras, quem acompanhou o vaqueiro nas veredas. Retirá-lo da paisagem é como arrancar páginas inteiras da história do sertão. O que será das futuras gerações quando olharem para o monumento e não reconhecerem no cimento o animal que já não existe? O que será da cultura nordestina quando o jumento deixar de ser presença viva e se tornar apenas figura de cordel, lembrança em fotografia antiga, sombra em canções que falam de um tempo que não volta? É preciso dizer: não podemos permitir que o jumento se torne apenas memória. Não podemos aceitar que o monumento erguido em sua honra seja apenas uma fotografia amarelada em livros de história. O jumento merece viver, merece caminhar, merece continuar sendo parte do sertão. Que este manifesto seja um alerta e um apelo. Que o sertanejo, o ambientalista, o governante e o cidadão comum se unam para salvar o animal que nos salvou tantas vezes. Porque defender o jumento é defender a própria dignidade do Nordeste. E que o monumento não seja epitáfio, mas promessa: promessa de que o sertão não esquece seus companheiros, promessa de que a memória não se rende ao mercado, promessa de que o jumento continuará a ser, como sempre foi, símbolo de resistência e vida. Ainda segundo a Revista Pesquisa FAPESP, em agosto de 2024, instituições de proteção aos animais solicitaram ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o registro do jumento como patrimônio cultural do país. O pedido foi negado, mas não faltam referências à cultura – e não só do Brasil. Longe da imagem moderna de pouca inteligência, o jumento aparece, como símbolo de humildade e de trabalho duro, em hieróglifos, nas Fábulas do escritor grego Esopo (564 a.C.-620 a.C.), no Alcorão e na Bíblia. Na canção Apologia ao jumento, um clássico da cultura popular, o compositor Luiz Gonzaga (1912-1989) entoa: “O jumento é nosso irmão!/ Sim! O jumento é nosso irmão/ Quer queira ou quer não!”. (clique para assistir ao vídeo) O dócil animal é também lembrado pelo escritor João Guimarães Rosa (1908-1967) em seu primeiro livro de contos Sagarana, de 1946, e pelo compositor Chico Buarque, na peça teatral Os saltimbancos, que estreou em 1976. Que não sejamos cúmplices desse silêncio. Que o sertão não perca seu guardião de passos firmes e olhar manso. O jumento, que carregou o peso da sobrevivência nordestina, agora carrega o peso da nossa responsabilidade. Salvá-lo é mais que proteger um animal: é preservar a memória, a cultura e a dignidade de um povo. Que o monumento erguido em sua honra não seja lembrança de um tempo extinto, mas testemunho vivo de que ainda sabemos reconhecer e defender aqueles que nos ajudaram a atravessar a seca da história. Janeiro, 2026 Referência: Pesquisadores e produtores se mobilizam para evitar a extinção de jumentos. Redução populacional ameaça espécie trazida para o Brasil há quase 500 anos. Mariana Ceci, da Revista Pesquisa FAPESP. 2025. |
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A mesma situação dos jumentos do semiárido Nordestino está ocorrendo na Austrália, país que introduziu os animais no séculos XIX com a finalidade de tração e montaria..
ResponderExcluirParabéns, João de Liô, pelo diagnóstico da situação atual dos asininos na região do semiárido.
Perfeito!
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