VII Antologia de Escritores Santanenses & Convidados ( Um encontro de vozes, histórias que inspiram e palavras que nos unem)

 





    Estivemos ontem, 17 de janeiro de 2026, no sertão alagoano, no auditório da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), polo de Santana do Ipanema, para celebrar um dos momentos mais marcantes da literatura contemporânea: o lançamento da VII Antologia de Escritores Santanenses & Convidados – Um encontro de vozes, histórias que inspiram e palavras que nos unem.

    Tive a honra de escrever o prefácio da obra, convite que surgiu após eu entregar meu texto inédito para compor a antologia, cumprindo uma promessa feita à coordenadora do projeto, a historiadora, escritora e professora Lícia Maciel. Aceitar o desafio de prefaciar este trabalho coletivo foi, para mim, motivo de grande orgulho e emoção.

    A antologia reúne 259 textos de autores de diferentes gerações – crianças, adolescentes, adultos e idosos – vindos de várias regiões de Alagoas, além de escritores pernambucanos. É uma verdadeira celebração da inclusão e da diversidade, valores que considero fundamentais para o futuro da literatura em nossa região.


    Além disso, a obra marca um momento muito especial em minha vida: a estreia de minha filha Angélica como escritora, com a poesia A estética de uma lágrima. Ver sua sensibilidade transformada em versos e eternizada nesta antologia é motivo de imenso orgulho e alegria. O encontro de pai e filha na mesma obra é mais que laço familiar: é transcendência, recomeço e fortalecimento literário.


A estética de uma lágrima


A depender de como a lágrima desliza
faz cócegas

às vezes escorrega tão lentamente
ok, vai, eu aceito o drama

Enquanto olho pra planta que cresce no asfalto
me pergunto sobre os momentos que marcaram
esse nossos desencontros

Mas não estou lagrimando por causa do concreto,
embora pudesse.
Quem rasgou o meu coração foi gente humana

Quem nós queremos enganar?
Não existe mais isso de gente humana.

O que existe é gente apartada de si.
O que existe é gente presa em labirinto mental.
O que existe é gente com medo.

As lágrimas em direção ao chão são
fragmentos líquidos de mim.

Angélica Nobre

Viva a literatura que nos une e nos fortalece!



Prefácio

A voz do Sertão que Ecoa na Literatura Contemporânea

     As Antologias Santanenses são movimentos literários espontâneos que surgiram em 2017, por iniciativa coletiva, coordenado pela historiadora, professora e escritora Lícia Maciel. Com o propósito de dar voz e vez aos sertanejos, reacendeu a imanência secular dos escritores, poetas e cordelistas da ribeira do Panema. Quero lembrar dos pioneiros professores Enéas Araújo(1856-1915) e sua esposa Maria Joaquina(1860-1934) que dedicaram suas vidas à educação dos sertanejos.

    
Como não reverenciar àqueles que sonharam com o desenvolvimento e transformação de vidas através da educação? Como não exaltar o legado de agricultores que deixaram a roça para estudar. Valdemar Lima, fundou o primeiro jornal do sertão “O Panema” no início do século XX; João Yoyô foi o primeiro diretor do Ginásio Santana e ainda publicava crônicas semanais no Jornal de Alagoas, nos anos 1950. Graduou-se na maturidade e se tornou magistrado. Como não lembrar do maestro Miguel Bulhões que mesmo sendo agricultor e comerciante também publicava suas crônicas no Jornal de Alagoas na metade do século XX.

   
    Este prefácio das Antologias Santanenses é mais do que uma introdução: é um manifesto de memória e resistência. Ao evocar alguns do seus ilustres personagens históricos como os professores Enéas, Maria Joaquina e os escritores Valdemar Lima, Breno Accioly, Tadeu Rocha, Oscar Silva, João Yoyô e Miguel Bulhões se constrói uma ponte entre o passado e o presente, abrindo caminho à literatura sertaneja não apenas como expressão artística, mas também como declaração solene de emancipação.

    As antologias surgiram por iniciativa de jovens literatos em resposta à necessidade de preservar a identidade cultural do sertão diante das transformações sociais, políticas e tecnológicas. O movimento reafirma que o sertanejo não é apenas aquele que planta e colhe, mas também aquele que escreve, que pensa e que sonha. A oralidade, os causos, as cantorias, os versos rimados e os relatos de vida ganham formas escritas e encontram espaço para circular além das fronteiras geográficas, reunindo várias gerações de autores.

    Ao valorizar a educação como eixo transformador, o movimento também aponta para o futuro. Ele nos lembra que cada livro publicado, cada texto compartilhado, é uma semente lançada no solo fértil do imaginário sertanejo.

    As Antologias Santanenses são, portanto, um convite à escuta, à leitura, à escrita e à valorização de vozes que por muito tempo foram silenciadas. São um gesto de resistência poética e uma celebração à memória coletiva. Que elas continuem a ecoar em todos os recantos. E, segundo Guimarães Rosa, “o sertão está em toda parte”.


O rio Ipanema: irriga palavras, mentes e une gerações


    O Panema dorme! Coberto com seu manto carrasquento desperta sob o sol na paisagem sertaneja, adornado de seixos reluzentes e banhados por fios prateados de águas serenadas que serpenteiam até se evaporar num passe de mágica. É a luz da manhã regendo a sinfonia do silêncio.

    Quem escuta com atenção percebe: há vozes ali. Vozes antigas de lavradores, pescadores, tangedores e seus jumentos com ancoretas d’água, barqueiros e crianças que corriam às margens quando a água ainda cantava. Hoje, o rio amordaçado e paralisado é palco de outra correnteza: a das ideias.

    Os quatro cantos da cidade parecem ter sido moldados pelas pedras e palavras e o Panema, alheio às águas fugidias, sobrevive a duras penas. Suas margens são berços de escritores e trovadores que colhem inspiração onde outros só enxergam tempos de estio. O quase nada do rio continua a irrigar mentes.

    Cada pedra do Panema guarda um canto e um conto. Cada rachadura no solo é uma metáfora esperando ser descoberta. E os santanenses, das almas lavadas, perpetuam sua saga estradeira e libertária como quem cultiva roça em terra dura: com fé, suor e encantamento.

    Aqui a ausência d’água é a verve do artista. E as ideias, essas sim, correm livres, como se o leito seco do rio fosse um traço artístico que contorna obstáculos e se enfeita de serras, barrancos, areias, pedras, ipomeias, craibeiras e muçambês até o São Francisco.

    A revolução silenciosa das antologias santanenses é a guardiã das sementes mensageiras das letras que deitam rebentos. O futuro começa agora embalado no mistério criativo das palavras que unem gerações. Somos feitos das infinitas areias da ribeira e da poeira estelar que correm em nossas veias pelo tempo que durar. Outros virão, viajantes erradios que surgem triunfantes na garupa leve do raio de luz que desponta nas encostas das serras.






Janeiro, 2026

Comentários

  1. Um belo prefácio para uma obra especial,antologia de escritores Santanenses e convidados.. E não poderia ser diferente, pela capacidade de lidar com as letras do prefaciador e ,também, pela emoção por sua filha está iniciando á carreira como autora de um poema .
    Parabéns, Xará, pelo prefácio!!

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