Entre tamarindos, descobertas e perdas (Conto)
Tony era mais que um amigo: era quase um irmão de travessuras. A vida lhe pesava em casa, mas na rua ele se reinventava. O futebol na rua e no campo vizinho à casa de seu Alberto. As corridas sem destino, as gargalhadas que escondiam cicatrizes invisíveis; tudo isso fazia dele um menino igual a tantos outros, ainda que carregasse dores que eu só intuía.
Foi numa tarde quente que ele apareceu com uma proposta curiosa: comprar tamarindo na casa da esquina da praça São Pedro. Mas não era só a fruta que o atraía. Havia uma menina “bonita”, disse ele, com uma simplicidade que escondia o turbilhão de novidades que se agitava no seu ser.
No dia seguinte, fomos juntos. O destino, caprichoso, fez com que fosse justamente ela quem nos atendesse. O gesto simples de entregar o pacote de tamarindos ganhou contornos de descoberta. Só olhar pra fruta fez sairmos dali com o sabor agridoce na boca cheia d’água e uma sensação nova no peito.
Eu percebia que Tony estava diferente. Não era apenas a menina graciosa que passava próximo à nossa casa todos os dias rumo ao colégio. Era o despertar de algo que não sabíamos nomear. Talvez fosse o primeiro lampejo da atração inexplicável ou apenas a curiosidade da juventude diante de um rosto que iluminava a rotina.
Naquele instante, compreendi que estávamos crescendo. Entre a violência que ele enfrentava e as brincadeiras que nos mantinham vivos, havia também espaço para o inesperado: o coração batendo mais rápido, o olhar se demorando, o silêncio carregado de significados.
E assim, entre tamarindos e descobertas, Tony me ensinava que a vida, mesmo dura, sempre guarda uma fresta de ternura.
A menina também cresceu, e com o tempo, tornou-se ainda mais bonita. A gente gostava de vê-la passar pela rua, seu jeito leve e o sorriso que parecia iluminar o caminho. Era como se a praça ganhasse um brilho especial quando ela por ali passava.
Mas, depois que os anos que se sucederam, não a vimos mais passar pelas redondezas. Soubemos, tempos depois, que havia mudado de endereço, e com isso, sumiu do nosso olhar e da nossa rotina. Depois, soubemos que a família tinha ido embora para outra cidade, levando consigo aquela presença que nos marcou, embora as conversas tenham sido resumidas.
Apesar da distância e do tempo, a lembrança dela ficou guardada com carinho na memória, como um daqueles sabores que o tamarindo provoca: só de pensar, enche a boca d’água! Todas as vezes que passo pela praça São Pedro, recordo dos tamarindos e da moça também.
A vida, que antes parecia cheia de possibilidades, foi se fechando para ele, como as portas daquela casa que um dia foi cheia de risos e sonhos. Tony cresceu, tornou-se um adulto alcoolista e emocionalmente instável que se envolvia facilmente em muitas confusões. Por causa disso sofreu inúmeras agressões até não resistir e falecer no hospital da cidade.
Malvisto, órfão e ignorado pelos familiares, não havia lugar para o seu velório. Foi necessário recorrer aos amigos para que o corpo fosse velado na capela Nossa Senhora Aparecida no bairro São Pedro, bem perto da antiga casa da moça dos tamarindos. Do seu local do sepultamento nada mais existe, senão poeira, a essência que nos irmana. Nos fins de tarde, o pó de barro que nos disfarça, levanta-se e ganha os céus; lá se vão os amigos, lá se vão os tropeiros pro mundo pra lá da terra árida.
A ausência de Tony deixou um vazio difícil de preencher, um silêncio que ecoa nas esquinas solitárias. Mas, mesmo com as dores e perdas, as lembranças da infância permanecem vivas. Hoje, nada mais lembra a praça de outrora. O lugar parece ter sido desfeito pelo movimento constante do tempo que transforma tudo em mera invenção.
Tony, por sua vez, deixou marcas diferentes. Aquelas cicatrizes invisíveis que carregava na infância se tornaram feridas abertas na vida adulta. A luta contra o álcool foi dura e solitária, e o brilho que um dia vi em seus olhos foi se apagando aos poucos.
Ainda assim, não consigo evitar lembrar dos momentos em que ele sorria com as nossas presepadas, mesmo que por breves instantes. Ainda estremeço ao lembrar das surras que ele levava do pai com galho de goiabeira, as esperanças desfeitas, tudo isso me acompanha como incógnita. Às vezes, acordo assustado no meio da noite achando que também iria apanhar da mesma forma. Sempre tive o pressentimento de que o pai dele não gostava de mim.
A praça São Pedro, com seus tamarindos e memórias, permanece como um refúgio onde passado e presente se encontram. E mesmo que Tony tenha partido e a menina também tenha seguido seu caminho, suas histórias ficaram marcadas no tempo e no espaço, como restos de sonhos que não se desgrudam das minhas lembranças.
Fevereiro, 2026

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Excelente recorte de um cotidiano, marcado por lembranças e sentimentos, que nos faz adentrar no conto e sentir todo o transcorrer da trajetória do personagem.
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