Entre o sobrado e o abrigo

 






Há memórias que não se apagam: atravessam gerações e se transformam em literatura.

Tadeu Rocha(1916-1994), em seu livro Modernismo e Regionalismo, afirma que "nenhum contista brasileiro teve o impacto tão poderoso de sua infância refletido nas suas obras de ficção quanto Breno Accioly(1921-1966). Os nove primeiros anos de sua vida vividos em Santana do Ipanema permaneceram tão vívidos no seu inconsciente que mais da metade dos contos constantes dos livros João Urso e Cogumelos possuem cenários sertanejos ou personagens de nomes bem conhecidos em sua cidade natal.

Fonte: Livro Modernismo e Regionalismo de Tadeu Rocha

Breno Accioly nasceu em 22 de março de 1921, no grande sobrado da praça principal da cidade. O seu avô materno, o “coronel” Manoel Rodrigues da Rocha, descendente direto de um sertanista pernambucano - João Rodrigues Cardoso, o fundador de Águas Belas -, não usava armas de qualquer espécie, nem tinha cangaceiros. Era homem de espírito de iniciativa e de capacidade de trabalho cujos negócios industriais e comerciais eram prósperos. Seu sobrado se destacava no centro comercial."

"Foi entre as paredes desse sobrado que Breno Accioly viveu os seus primeiros sete anos, num ambiente de misticismo religioso, transações comerciais e formalismo jurídico. Porém, na praça fronteira ele completou sua experiência de menino, entrando em contato com a cidade: no outro lado da praça, ficava a Matriz da Paróquia, dirigida pelo seu padrinho, o vigário José Bulhões. Nas duas casas à direita do sobrado residiam a avó e os pais de Agissé, Poni e Berenice Feitosa, cuja insanidade lhe inspirou as figuras de João Urso, Poni e Cíntia; e na segunda casa à esquerda morava o insuperável Hermídio Firmo, que não saía nunca de casa e passava o ano todo executando encomendas de "mané-gostoso" ou imagens de santos, para na época da festa armar o seu sortido presépio. Foram esses vizinhos de Breno Accioly, tão inocentes como esquisitos, que melhor ficaram retratados nos seus contos. Foram como que superados numa recriação, onde o modelo é convertido numa personagem mais densa, mais humana, mais poética."

Na década de 1980, eu fazia parte do Movimento de Jovens Cristãos da paróquia de Senhora Sant’Ana que fazia um trabalho voluntário no Abrigo de Idosos São Vicente de Paulo. O trabalho consistia na colaboração da faxina mensal dos apartamentos. Um dos residentes era Poni, que embora eu conhecesse de nome, nunca havia interagido com ele.

Fonte: Clerisvaldo Chagas, 2013

Era um dos últimos de uma família incomum: Dona Hermínia e o sargento Antides e seus 04 filhos, sendo três deles loucos. O pai construiu a capelinha no Morro da Goiabeira que a gente conhece como “Cruzeiro”, sob a invocação de Santa Terezinha, como “promessa” para acabar com a sina dos filhos deficientes mentais. Porém, sumiu no meio do mundo, abandonando-os. Dizem que foi uma praga, porém nunca saberemos a verdade.

Poni, era alto, magro, branco e tinha as feições compridas. Seus braços faziam no ar uns trejeitos que terminavam com o seu riso sarcástico, dependendo da situação. Na escala do trabalho, eu fiquei responsável pela limpeza do seu quarto. Ele não queria nenhuma limpeza, nem ninguém no seu quarto. Repetia várias vezes as últimas palavras pronunciadas. Nos poucos diálogos que tive deu pra perceber um pouco daquele riso que me causava um frio na espinha e eu não sabia o porquê; gestos inesperados seguidos de risos sem motivação! Era muito estranho! Cumpri a missão, mas nunca comentei nada sobre os medos que tive, sem razão. Porém, a impressão que ficou foi de risos forçados que mais assustavam do que alegravam. Nunca me esqueci.

Edilma Bomfim, em sua tese de doutoramento, Razão Mutilada, Ficção e Loucura em Breno Accioly, narra sobre o riso assustador do personagem João Urso: “A ambivalência do riso assustador instaura um sentido perverso, alienado e alienante para a personagem central, fazendo dessa criatura insana um ser sem lugar que desliza entre antinomias: dócil mas assustador; altamente triste, mas gargalhando; rindo profundamente e sendo temido. O narrador joga com essa ideia paradoxal para mostrar, a nosso ver, a psique desestruturada da personagem, representando-a através desse riso “que ninguém compreendia, o que fez muita gente chamar-lhe de maluco”. Intensificando o aspecto insano da mente de João Urso, a sua caracterização psíquica desintegrada é tecida através de imagens que reportam ao inconsciente primitivo como: boca rasgada, limo nos dentes, bochechas espremendo os olhos e outras que se articulam na narrativa.”

E assim, entre o sobrado da infância de Breno Accioly e o quarto modesto do abrigo, o riso de Poni atravessa o tempo como um eco inquietante. O que para mim foi apenas um instante de desconforto, para Accioly se transformou em matéria-prima de ficção, em símbolo da fragilidade humana e da fronteira tênue entre razão e delírio. Talvez seja esse o poder da literatura: dar permanência ao que parecia efêmero, transformar o medo em metáfora, o vizinho em personagem, o riso em enigma. No fim, o sertão de Santana do Ipanema não ficou apenas nas lembranças de um menino, mas se converteu em território universal da imaginação, onde cada figura, por mais estranha ou marginal, encontra lugar e voz.

Quantos risos, estranhos ou familiares, permanecem em nossas lembranças como enigmas que só a literatura pode decifrar…?


Maio, 2026


O enterro de Agissé


Quando Agissé morreu, o mais velho dos irmãos, o velório foi realizado na residência, como de costume, no centro da cidade. No dia seguinte, o cortejo fúnebre partiu para o cemitério Santa Sofia, que fica aproximadamente a um quilômetro de distância, depois de duas subidas íngremes. Era comum haver revezamento entre os voluntários que seguravam as alças do caixão do defunto no longo percurso.

Poni chegava e carregava um pouco, depois chegava outro e assim ia… Então, os velhos presepeiros da cidade resolveram pregar uma peça no Poni. Todos eram conhecidos: Espedito Sobreira, Zé Chagas e Abel Chagas que gostavam de provocá-lo para ver a reação dele. Conspiraram deixá-lo sem substituto no revezamento. E assim foi! E combinaram entre si: - Quando o Poni pegar no caixão, a gente não vai substituí-lo. E foram seguindo e subindo, tornando mais cansativa a jornada de fé e piedade cristã.

Depois da ponte do padre, na ladeira antes da rua Pedro Brandão, deixaram mais uma vez Poni sozinho, que começou a se aperrear com o peso. Quando chegaram no Maracanã, Poni já estava exausto. Impaciente, desabafou: - Oh, pega aqui esse fiu da peste, que eu não tô mais aguentando não! Pega, pega se não eu derrubo ele aqui. Aí a turma riu e foi socorrê-lo… Depois, retomaram as alças do caixão e continuaram a subida. Poni não quis mais saber de pegar nas alças do caixão em que jazia o corpo do irmão morto.

Maio, 2026

Comentários

  1. Jose Elias Rodrigues12/05/2026, 11:29

    Sou Elias e filho de Dona Branca e Seu Elias.
    Moramos no prédio grande, onde tivemos Restaurante, dormitório e Loja de Móveis. Éramos vizinhos de Dona Hermínia, Poni e Bebé (Berenice). Pessoas simples e boas. Não causavam problemas e nem medo a ninguém! Abraços

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