Vozes do Silêncio na roda-viva


“A vida não é o que a gente viveu. É o que a gente lembra e como lembra para contá-la.”   Gabriel García Márquez







A vida parece se mover em um espaço onde acaso, sincronismo, destino e fé se entrelaçam.

Acaso: Há quem diga que muito do que nos acontece é fruto de probabilidades, encontros fortuitos e circunstâncias imprevisíveis;
Sincronismo: Jung falava de “coincidências significativas”, momentos em que eventos externos parecem se alinhar com estados internos, dando a sensação de que há uma ordem oculta;
Destino: Para alguns, existe um roteiro já traçado, e nossas escolhas apenas revelam o caminho que estava escrito;
Mão divina: A fé traz a ideia de que há uma força superior guiando nossos passos, mesmo nos detalhes mais sutis.

O fascinante é que essas perspectivas não precisam se excluir. Podemos viver acreditando no acaso, mas ainda assim perceber sincronismos que nos inspiram, sentir que há um destino maior e, ao mesmo tempo, confiar na Providência Divina.

Eu diria que o mistério da vida está justamente nesse equilíbrio: não sabemos se somos autores, coautores ou apenas personagens de uma trama maior. E talvez seja essa incerteza que dá relevância à existência.

Em Vozes do Silêncio, a memória se torna matéria viva. O acaso reuniu em Santana do Ipanema várias trajetórias aparentemente improváveis: Darras, veio de Pão de Açúcar, à procura de vida melhor nas terras de Sant’Ana. Foi comerciante e diretor de disciplina do Colégio Santanense até ser nomeado chefe dos Correios.

Marinita, natural de São Miguel dos Campos, professora formada em Maceió foi contratada pelo Estado para lecionar na recém-fundada Escola Estadual Padre Francisco Correia. Unidos em matrimônio em 1938, deram origem a uma família que se tornaria intensamente marcada pela educação, teatro, pintura, música, fotografia, cinema e comunicação.

Esse encontro não foi apenas a formação de um lar, mas o início de uma herança simbólica que moldou seus descendentes. Entre lembranças e fragmentos, o livro revela como o silêncio pode ser povoado de vozes; vozes que narram, que guardam e que reinventam a vida de Nestor Noya.

Mais do que uma biografia, esta obra é um convite à reflexão sobre como nossas histórias se constroem na memória e se perpetuam na forma como escolhemos contá-las.


Em segundo plano, meus avós expulsos de suas terras, mudam-se para o distrito de Sertãozinho (Major Izidoro), onde se constituiu minha família que migrou para o povoado Capim(Olivença). Em 1962 com a ajuda do Padre Cirilo retorna às raízes em busca de melhores condições de vida. Nessa mistura de acasos e incertezas, minha única irmã conhece Zé Neto, irmão de Nestor e se casa, constituindo uma nova família, interligando destinos.

De gerações diferentes eu vou surgir como espectador documentarista, buscando identificar conexões dos personagens no misterioso emaranhado da teia existencial.

Em 2012, conheci Pedro da Rocha, cineasta e documentarista, que chegou a mim através de uma amiga comum, motivado pela leitura do meu conto de estreia em 1997 versando sobre o cinema santanense. Pedro havia ganhado edital público para produzir um documentário sobre o filme A Volta pela Estrada da Violência e a sua influência memorialística na sociedade santanense.

Depois de alguns trabalhos realizados conjuntamente ele me indagou se eu teria alguma indicação de trabalho relevante que ele pudesse desenvolver com o meu apoio. Defendi alguns temas, incluindo a vida de Nestor e seus trabalhos com o cinema, fotografia e exílio na Europa durante a Ditadura Militar. De pronto, foi o tema escolhido.

Por outro lado, eu não tinha o propósito de escrever a biografia de Nestor. Meu empenho não havia ultrapassado os limites de uma crônica, escrita às pressas, em razão do seu falecimento em 2016, um ano após a morte de Zé Neto. Pedro, antes de falecer em 2021 em decorrência das complicações da Covid-19 - sem concluir o documentário iniciado -, já havia me recomendado escrever um livro. Argumentou que eu já tinha material suficiente para a empreitada, embora eu discordasse.

O fato é que nesta vida a gente influencia e é influenciado. São fatores psicológicos conscientes ou inconscientes, intelectual ou afetivo que atravessam as fronteiras do nosso ser, moldando nossa conduta. Tive influências musicais de Zé Neto pela proximidade. Contudo, não convivi com Nestor. Fui influenciado por suas realizações fotográficas, cinematográficas e sua disposição ao risco.

Tenho a convicção de que a grande maioria das famílias não terá condições de escrever um livro sobre suas origens. Entretanto, a memória e a oralidade foram as formas primitivas de preservação da cultura dos antepassados - repetidas de geração em geração - que continuam válidas nos tempos atuais. Precisamos honrar a memória daqueles que nos antecederam. Será que sabemos os nomes dos nossos bisavós?

Você já se deu conta de quantas pessoas nos antecederam? O número de ancestrais dobra a cada geração que se volta no tempo, somando milhares de pessoas. Estarmos aqui já foi o grande milagre biológico na corrida existencial.

O que somos contém muito daqueles que viveram antes de nós, mesmo que a gente não tenha plena consciência dessa verdade ou até ignore. Seguem em nós as marcas de suas lutas, decepções, fracassos, recomeços, vitórias e sonhos. Então, somos um resumo de todas as gerações que nos precederam. Somos mensageiros do legado hereditário presente na trama simbólica crescente e viva que nos conecta ao passado e ao futuro.

Por fim, percebo que contar histórias não é apenas registrar fatos, mas dar sentido ao que nos trouxe até aqui. Entre encontros improváveis, perdas e reencontros, a memória se revela como o verdadeiro palco onde acaso, destino, fé e sincronismo se encontram. É nesse espaço de lembranças que a vida se reinventa, e é ao narrá-la que garantimos que as Vozes do Silêncio continuam ecoando, não como passado morto, mas como presença viva que nos orienta e nos inspira a seguir.

"Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto".  Leonardo Boff


Julho, 2026







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