Fruta de Palma, Oscar Silva

 





Os cactos que infestam as caatingas sertanejas são, no geral, marcos de luta contra as canículas nordestinas. Depois do juazeiro, somente o cacto resiste, impávido e soberbo, ao impiedoso sol de nosso sertão.

Viajando no estio, sente-se de logo a tristeza do ambiente, ao deixar a chamada Zona da Mata: salta-nos à vista aquela porção de mandacarus, facheiros, alastrados e coroas-de-frade que vicejam entre angicos, catingueiras, marmeleiros ou bonomes crestados, depenados, esqueléticos e cinzentos, por não terem suportado a desumanidade de um calor esturricante.

Enquanto certas árvores imitam pessoas resignadas pela humilhação, face à superioridade das forças adversas, o cacto se assemelha perfeitamente ao herói cuja bravura não arrefece na luta contra o mais feroz de todos os inimigos.

E o sertanejo parece ver no cacto um legítimo irmão de lutas contra o flagelo das secas. O homem do sertão ama, como se fossem seres animados, o xiquexique, o facheiro, o quipá, o alastrado e a coroa-de-frade que, quando lhe não fornecem os frutos por alimento, dão o cerne que sustenta o gado ou lhe oferecem água da medula para matar a sede quase secular.

O cacto e o homem do sertão solidarizam-se e se confundem na luta pela vida, de tal sorte que ninguém compreenderia um, se não contasse com a existência do outro.

Quem deixava Santana em busca do arrabalde de Bebedouro. ao descer a ladeira que sai da cidade, topava, quase de testa, com um pé de imbu-cajá, os galhos espraiando-se para um e outro lado e por sobre a casa a cujo dono a árvore pertencia.

O imbu-cajá, embora oval como qualquer imbu, tem três ou quatro picos pouco mais salientes numa das extremidades, e o seu sabor medeia entre o do imbu comum e o da cajá verdadeira. Daí, sem dúvida, o nome composto que lhe foi emprestado. Menos fácil de encontrar que o do outro imbu, o pé de imbu-cajá é perseguido pelos meninos sertanejos, que o assediam sem lhe dar tréguas, tão logo pressintam a existência de frutos maduros ou simplesmente inchados.

Aquele pé de imbu-cajá, a casa e o par de velhos que eu vi na meninice são páginas coloridas da história de quase todos os garotos santanenses de minha geração.

O velho João Tavares, dono da casa e do imbuzeiro, só por muita insistência consentia que um de nós tirasse alguns daqueles imbus para a "turma". Sua esposa, porém, a velha Verônica, essa de modo algum permitia que chupássemos um imbu sequer.

Quando o velho João não estava em casa, era debalde pedir ou implorar. Aquela Verônica era uma Verônica diferente, uma Verônica incapaz de compadecer-se do sofrimento humano. E não havia mesmo maior sofrimento para nós do que ver e não poder chupar aqueles imbus maduros. Aí, só tínhamos um caminho: subir um, e os outros ficarem de sentinela, à espreita da aproximação da velha. Dado o alarme, o companheiro descia rápido ou pulava para o chão, mas já com os bolsos cheios de imbus. E disparávamos todos, correndo e rindo, rindo e mangando da dona do imbuzeiro.

Depois disso, repartíamos o troféu irmamente, ainda que tocasse apenas uma dentada no imbu para cada um. Quando, porém, havia descuido na vigilância, ocorria sermos surpreendidos com Sinhá Verônica debaixo do imbuzeiro, uma vara de marmeleiro ou um cabo de vassoura na mão e a gritar:

- Desce pra baixo, desgraçado! Continuávamos, então, ali gritando, driblando e procurando perturbar a velha, até que o companheiro, pulando de galho em galho como macaco, encontrasse oportunidade de saltar do imbuzeiro e fugir.

O velho João Tavares nunca se prestava a essa nossa brincadeira de mau gosto. Não queria que subíssemos no imbuzeiro sem a sua ordem, mas, quando nos apanhava em infração, o que fazia era ralhar e ameaçar-nos de um entendimento entre ele e nossos pais. O amor-próprio, o fraco do velho, a menina de seus olhos estava nas palmas que lhe enchiam todo o cercado por trás daquela mesma casa.

Havia pés de palma com talvez mais de dez anos de idade e bem mais altos do que o próprio João Tavares. Enfiado numa calça de farinha-com-pólvora, pés metidos numas alpercatas sertanejas e a camisa de algodãozinho totalmente por fora da calça, o velho mergulhava diariamente entre as touceiras de palma e ficava ali perdido horas e horas, confundindo, irmanando o homem com o cacto, passando-lhe a mão pelos espinhos, meiga, branda e carinhosamente, como se naquilo estivesse a maior delícia de sua vida.

Ninguém que ousasse invadir o cercado de João Tavares e roubar-lhe uma folha murcha daquela palma para o porco ou a cabra do quintal. Quem iria arriscar-se a pedras, pauladas e a relho do velho por tão pouca coisa? Dali só saía, às cargas ou carradas, a palma que ele vendesse por bom dinheiro para alimentar o gado de quem dispunha de bons recursos.

Mas a palma, como os demais cactos sertanejos, frutifica. E a gente gostava mais daquelas frutas amarelas, com uma polpa quase de maracujá, do que das vermelhas de mandacaru, facheiro ou alastrado. Era, pois, nessas épocas, quando as palmas frutificavam, que o velho João Tavares perdia o sossego dentro do próprio quintal. Nunca lhe respeitávamos os gritos, as pauladas, o relho ou a cerca de sete fios de arame farpado.

Certa vez, fui o escalado a pular a cerca e tirar frutas de palma para os companheiros que ficaram do lado de fora, vigiando e prontos a dar-me o sinal de perigo.

Puxei algumas e joguei-as para os amigos. Vi uma fruta que, mesmo de longe, talvez induzisse Eva a novo pecado. Senti a boca cheia d'água. E fui andando, fui andando, cautelosamente. Quando ergui o braço, ouvi um movimento próximo. Fiquei arisco. Estaquei. O velho tinha-nos visto sem ser percebido pelos nossos sentinelas. Qual uma onça, pulou sobre mim. Nunca vi cara mais horrível. Mas, naquele tempo, eu já conhecia o "pulo do gato" e, rápido, icei-me na cerca. O arame farpado agarrou-me pela calça, bem na altura da coxa esquerda. Senti uma dor danada e quis recuar. Olhei para trás e vi que o velho vinha pega-não-pega. Fiz uma careta de dor e pulei, deixando uma banda de perna de calça e levando comigo os arranhões a sangrarem-me a coxa. Enquanto isso, o velho parava gritando:

⁃ Tu te rasgas, diabo!

Dias depois, chegando a casa, encontrei o velho a palestrar com minha avó, a quem narrava o ocorrido. Ambos riam gostosamente, ali em casa, longe do cacto, João Tavares nem parecia aquela fera que ameaçara tragar-me por uma tolice. Continuava rindo e a chamar-me de "safadinho".

Entrei meio desconfiado, meti-me no quarto, deitei-me e estiquei o lençol dos pés à cabeça. Agora eu não tinha aquela coragem com que marchara para o cercado do velho; tremia sob a coberta e pensava na sova prestes a ser-me aplicada como castigo.

A proporção, porém, que minha avó ria e fazia alusões suas peraltices de menina, fui-me sentindo sossegar e terminei num gostoso sono de criança.

Quando acordei, o jantar estava na mesa e, nem nesse dia nem depois, ninguém de casa me falou diretamente sobre aquele assunto. Mesmo assim, fiquei assustado e nunca mais pulei a cerca de pessoa alguma para roubar fruta de palma.


Para saber mais:


Referência:
Silva, Oscar (1915-1991) Fruta de Palma(Crônicas Nordestinas) 2.ª. 1990.



Junho, 2026

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