Mil tons do ébano
Nem mesmo a lonjura e a rudeza do sertão foi capaz de conter o som que atravessava o rádio e chegava até mim, menino curioso do sertão alagoano. Meu pai, músico e ouvinte assíduo, era quem me guiava por essa diversidade sonora que se espalhava pelo ar. Foi assim que aprendi a valorizar cada estilo, cada timbre, cada batida; como se cada canção fosse uma janela aberta para mundos diferentes.
A loja de discos da cidade era meu universo preferido. Entre prateleiras abarrotadas, eu buscava novidades, ecos dos festivais que agitavam a televisão e incendiavam plateias. E foi ali, perdido entre capas coloridas e nomes consagrados - anos depois -, que encontrei um artista desconhecido para mim. A voz era única, celestial, e sua musicalidade dissonante parecia desafiar tudo o que eu já havia escutado. As letras, fortes e intensas, falavam de escolhas e destinos. Era o mineiro Milton Nascimento.
Soube depois que ele temia que sua música não tivesse importância, que sua inscrição no festival havia sido feita contra sua vontade. Mas bastou uma canção — Travessia — para mudar minha forma de ver o mundo. Aquele encontro inesperado, naquela pequena loja do sertão (Cardoso Discos), foi mais que um achado musical: foi um rito de passagem. Descobri que a música não apenas atravessa fronteiras geográficas, mas também as fronteiras da alma.
Em outubro de 1967, “Travessia”, parceria inaugural entre Milton Nascimento e Fernando Brant, brilhou no II Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho. Ficou em segundo lugar, atrás de Margarida, de Guarabyra, mas à frente de nomes já consagrados como Chico Buarque e Vinícius de Moraes. Mais que a posição, foi a revelação: Milton conquistou o prêmio de melhor intérprete e se projetou nacionalmente.
Curiosamente, por pouco a composição não ficou de fora. Milton não gostava do clima competitivo, e coube a Agostinho dos Santos inscrevê-la. A melodia nasceu junto com Morro Velho, e inicialmente se chamaria Vendedor de Sonhos. Mas, ao ganhar letra de Brant, foi eternizada com a última palavra de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: Travessia.
Naquele outubro, o Brasil fervia em cultura e política. Em São Paulo, o III Festival de Música Brasileira trazia protestos contra o regime; no Rio, o II FIC recebia músicos estrangeiros e até estrelas internacionais, como Kim Novak.
Milton foi o único a classificar três músicas entre as finalistas. Defendeu Travessia com maestria, vestido em terno alugado, ao lado de Brant, que usava um blazer emprestado por Toninho Horta. A apresentação foi um divisor de águas para os mineiros, abrindo as portas para a geração do Clube da Esquina e apresentando ao mundo a voz sublime de Bituca.
Desde então, cada acorde que escuto carrega em si a lembrança daquele instante. A música, que parecia distante, tornou-se parte de mim. E Milton, com sua travessia, ensinou-me que não há sertão capaz de limitar o alcance de uma canção. Os amigos que gostavam de música como eu, reuniam-se lá em casa para ouvi-los e dividir os primeiros passos de aprendizado de violão que se iniciava e se inspirava na moderna e revolucionária música das Minas Gerais. De lá pra cá, ainda persistimos no desejo de aprender.
A musicalidade do Clube da Esquina pode ser definida como uma fusão ousada e poética de diversas influências, que resultou em uma sonoridade única dentro da Música Popular Brasileira. O movimento, liderado por Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges e outros músicos como Beto Guedes, Toninho Horta e Wagner Tiso, nasceu em Belo Horizonte no fim dos anos 1960 e se destacou pela capacidade de misturar raízes locais com referências globais.
Travessia é um poema sobre a condição humana diante da dor, a tentação de desistir e a escolha de continuar. É itinerário tanto emocional quanto existencial; um rito de passagem da tristeza para a afirmação da vida.
Ninguém, em sua existência, estará livre das escolhas. E, por conseguinte, são inevitáveis e constituem o fio condutor da vida. Cada decisão, grande ou pequena, carrega em si o peso de um caminho solitário na qual o indivíduo se vê diante de sua própria essência, confrontando medos, desejos e valores. Escolher é, portanto, mais do que optar entre rumos: é um ato de autodescoberta, um encontro íntimo consigo mesmo, que revela quem somos e quem desejamos ser.
O único show ao vivo do artista a que assisti foi em Maceió, gratuito, na praia de Pajuçara, nos anos 2000, show de divulgação do álbum Pietá, considerado um dos melhores trabalhos da carreira recente de Milton, premiado como melhor álbum de música brasileira de 2003. O evento se iniciou rigorosamente no horário previsto, algo raro nos eventos musicais. Clique para ouvir Voa Bicho que faz parte do álbum.
Março, 2026







Bravo por mais uma crônica melimetricamente maravilhosa!!!
ResponderExcluir"Água de beber, bica no quintal, sede de viver
ResponderExcluirE o esquecer era tão normal
E tempo parava...."
Que crônica maravilhosa, João! Por coincidência, também estou escrevendo uma inspirada em outra pérola de Milton Nascimento, que tive o privilégio de conhecer e cuja humildade muito me impressionou: a canção “Encontros e Despedidas”. Espero publicá-la até o fim do mês.
ResponderExcluir